Café com Ciência 23/06/2010

“Pesquisas em nutrição: fase I, fase II, fase III, pesquisa translacional... em que fase estamos?”

A organização da pesquisa, tanto experimental quanto clínica, deve ser, sempre, abordada e desenvolvida como se fosse o processo que envolve um protocolo rígido de elaboração, execução, acompanhamento, avaliação dos resultados e conclusão, dentro de metodologia estrita, à semelhança da matemática ou da religião. Todavia, a essência básica dessa metodologia específica não deve ser confundida ou caracterizada como a matemática per se, pois não é na realidade.

A Dra. Yara C. Baxter fez excelente exposição sobre o tema título, mencionado acima, abordando os principais tópicos do processo da pesquisa lato sensu, entretanto devem ser ressaltados alguns pontos importantes a serem discutidos.

As fases do desenvolvimento da pesquisa devem ser vistas como a sua parte extrínseca, em que os meandros da sua característica básica já foram elaborados, quando da constituição do desenho fundamental do estudo. Essas fases da pesquisa foram criadas e estabelecidas pelo departamento “Food and Drug Administration (FDA)” do “U.S. Department of Health and Human Services” dos EUA. Essas estão muito bem delineadas e explicadas em estudo já publicado1.

A parte intrínseca da pesquisa consta do seu conteúdo primário em que aparecem os subtópicos: a) Introdução, b) Objetivo, c) Material / Pacientes e Métodos, d) Resultados e e) Conclusão. Sem esses passos protocolares, não existe qualquer pesquisa! Logo, podem, também, ser vistos como o catecismo a ser obrigatoriamente seguido, quando da realização do protocolo de pesquisa.

A pesquisa “translacional” (Translational Research)2 pode e deve ser visualizada como a “tradução” de um elemento da sua constituição básica para outro conseqüente do primeiro. Seria, realmente, a tradução na própria acepção da palavra. Desse modo, dentro desse contexto poderia se falar na eficácia química ou experimental de um determinado composto ou substância, que iria estimular a formação conseqüente de outro correlato com a função final desejada do produto.

Essa característica está bem exemplificada nos estudos envolvendo as “ômicas” – Genômica, Proteômica, Metabolômica, etc. Escolhendo, por exemplo, a proteômica, vislumbram-se os estudos sobre a síntese do mRNA (RNA mensageiro) a partir do DNA correspondente, de onde surge a síntese de uma proteína específica (Marcadores e/ou Mediadores de doenças), partindo do estímulo primário específico para as suas sínteses.

A pesquisa do tipo “Alvo molecular3 (Molecular Target)”, também constituinte da parte intrínseca ou mais específica ainda da pesquisa, em que passa a ser estudada uma via exclusiva de qualquer processo metabólico do organismo. Como exemplo, pode ser citado o mecanismo da Ubiquitina Proteassoma, marcantemente presente no câncer, em que esse atua como agente principal no catabolismo de proteínas e, paradoxalmente, consome energia para a sua atuação plena. Logo, esse poderá ser estimulado ou bloqueado direta ou indiretamente por um agente experimental em avaliação.

Esse tipo de pesquisa é direcionado para um determinado organismo que seria primariamente susceptível e responsivo ao agente experimental em estudo, pois se assim não fosse, não traria qualquer benefício metabólico ou clínico, quando da sua utilização final nas práticas propedêutica ou terapêutica.

Assim, posicionando corretamente todos os passos citados acima, pode-se chegar à “Hormese Nutricional”, em que é estudada a quantidade ótima de um nutriente específico para um determinado fim. Seria a “Hormetic dose-response” do inglês, que pode ser traduzida como a atividade laboriosa direcionada para uma meta específica. O que seria, na realidade, o estudo da farmacodinâmica ou da farmacocinética de um determinado agente bioquímico, metabólico ou nutricional, caracterizando a imuno-modulação ou a fármaco nutrição propriamente dita4.

Resumindo, a pesquisa latu senso no contexto citado acima tem as seguintes características:

 - Parte Intrínseca

       – Desenho Primordial do Estudo

        Pesquisa Translacional (Tradução propriamente dita)

        Pesquisa com Alvo Molecular

 - Parte Extrínseca

       – Fases I, II, III e IV (Experimental – I e II, e Clínica – III e IV)

         Englobando todo o processo da pesquisa, constituindo, conjuntamente, a Fase da Aplicação Clínica

 - Hormese Nutricional – A aplicação clínica ótima de um agente específico estudado experimentalmente.

Bibliografia:

1) Temple R. Current definitions of phases of investigations and the role of the FDA in the conduct of clinical trials. Am Heart J 2000; 134(9): S133 – S135.

2) Goldblatt EM, Lee W-H. From bench to bedside: the growing use of translational research in cancer medicine. Am J Translat Res 2010; 2(1): 1 – 18.

3) Heber D. Multitargeted therapy of cancer by ellagitannins. Cancer Letters 2008; 269: 262 – 8.

4) Dupertuis YM, Meguid MM, Pichard C. Advancing from immunonutrition to a pharmaconutrition: a gigantic challenge. Curr Opin Clin Nutr Metab Care 2008; 12: 398 – 403.

Dr. Eduardo E. Moreira da Rocha Especialista em Terapia Nutricional pela SBNPE